Estamos preparados?
Notas sobre o desconhecido, a escolha e outras formas de cair para a frente
Fotografia © Diana Carriço
Esta coisa do “estar preparado” começou numa conversa em família e alguém pousa na mesa uma pergunta com peso específico: “estás ou não preparada para ter filhos?” - a partir daí, enquanto a conversa seguia o seu curso pragmático do tema, a minha cabeça fez o que costuma fazer: desligou-se da superfície dos argumentos e foi caminhar pelos corredores um pouco poeirentos do seu próprio palácio da mente, uma casa mal arrumada onde as perguntas ecoam mais alto do que as respostas, e começou a perguntar-se o que é isto, exactamente, de se estar preparado. Quando se está preparado para ter filhos, para assumir um compromisso de longo prazo, para terminar uma relação, para perder alguém que se ama, para começar um projecto, para largar o emprego que se detesta, para reconhecer que já não se aguenta uma certa versão de nós próprios que insiste em sobreviver por inércia?
À primeira vista, “estar preparado” parece uma fórmula prática, quase administrativa. Um cálculo logístico de estabilidade emocional, financeira, psicológica. A fantasia de um momento em que alguém poderia, com alguma segurança, levantar a mão e declarar: agora sim, agora tenho condições para atravessar este limiar, mas quanto mais me detenho nesta ideia, mais ela se desfaz. A vida raramente respeita a cronologia pedagógica em que primeiro se aprende e depois se vive. Vivemos, e só mais tarde, se tivermos sorte e algum vocabulário, percebemos o que aconteceu.
Kierkegaard dizia qualquer coisa como “a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas deve ser vivida olhando para a frente”. Entre estas duas direcções abre-se um desfasamento estrutural, um vazio que nenhuma teoria preenche. A preparação verdadeira só aparece depois do acontecimento, antes disso existe apenas decisão ou hesitação. É como se tentássemos reforçar os alicerces de uma casa enquanto já moramos dentro dela, com a chuva a entrar pelas janelas mal calafetadas e o vento a atravessar as frestas da porta.
A questão de “estar preparado” escapa depressa ao tema dos filhos e espalha-se pelos outros compartimentos da vida. Estaremos preparados para escolher alguém e dizer: é contigo que quero atravessar os anos, com tudo o que ainda não sei que os anos vão fazer de nós? Estaremos preparados para terminar uma relação cuja planta já não coincide com o corpo que temos? Estaremos preparados para perder quem amamos, para assistir ao envelhecimento dos nossos pais, à dissolução de certas amizades, ao desaparecimento inevitável de versões antigas de nós próprios? Que tipo de preparação existiria para essas experiências que só se revelam quando já estamos dentro delas?
A linguagem da preparação é sempre uma linguagem de controlo, e o controlo é uma ficção que a modernidade produziu. Servimo-nos dela para não dizer o que realmente queremos dizer: tenho medo. Medo de errar de uma forma que não tem desfazer, medo de tomar uma decisão irreversível num mundo onde tudo parece desenhado para ter botão de retorno, direito a troca, política de devolução. Mas não há refunds existenciais, e é essa a ofensa secreta que a condição humana nos faz.
Sobre a existência, Schopenhauer descreveu-a como a expressão de uma vontade cega, uma força anterior à razão que nos empurra para amar, desejar, reproduzir e continuar a espécie sem que compreendamos verdadeiramente as consequências. Sob esta luz, a decisão de trazer alguém ao mundo não seria um acto plenamente racional, mas uma erupção dessa energia subterrânea que atravessa todos os seres vivos. O meu querido Nietzsche, que desconfiava de arquitecturas morais demasiado arrumadas, dizia que viver implica suportar uma certa quantidade de caos. O humano digno desse nome seria aquele que aprende a dançar sobre esse caos sem exigir garantias metafísicas, sem exigir da vida aquilo que nem ela prometeu.
A crença na preparação é, talvez, uma tentativa civilizacional de domesticar essa vertigem. Anda de mãos dadas com a meritocracia - e já escrevi sobre isso antes, aqui. Construímos a ideia de “estar preparado” como se desenha um manual de instruções para uma casa que ainda não foi construída, com plantas perfeitas, vistas 3D e simulações de luz natural. Depois, quando a vida começa a erguer as paredes ao acaso, ficamos indignados por ela ignorar os nossos desenhos e arquitecturas da vida.
A história cultural mostra várias tentativas de resolver esta angústia. Muitas sociedades criaram rituais destinados a marcar a passagem entre etapas - iniciações, cerimónias de casamento, práticas comunitárias associadas ao nascimento ou à morte. Antropólogos como o Arnold van Gennep leram esses rituais como mecanismos simbólicos capazes de organizar transições existenciais: não é que preparem verdadeiramente, mas oferecem uma moldura, um andaime narrativo a que a experiência se pode encostar por instantes. Esses dispositivos não eliminavam a incerteza. Tornavam-na apenas inteligível dentro de uma história partilhada, como quem alumia com velas as divisões de uma casa em ruínas para que ninguém tropece demasiado. A modernidade substituiu grande parte dessas estruturas por uma crença distinta: a confiança na autonomia do indivíduo racional. A preparação passou a significar maturidade psicológica, estabilidade material, clareza emocional. Um estado interior que permitiria enfrentar a vida com alguma previsibilidade, mas convém perguntar até que ponto essa ideia corresponde à realidade da experiência humana, ou se não será apenas mais uma fachada bem pintada num prédio com fissuras antigas.
O existencialismo de Sartre diz que a má-fé começa precisamente quando esperamos que a decisão tome a nossa forma antes de a tomarmos. Mas a decisão não tem forma antes de ser tomada. Somos nós que lha damos, ao arriscá-la, e toda a vida que se segue é o trabalho quase artesanal de habitar essa escolha com o máximo de integridade de que formos capazes. A existência humana acontece apenas uma vez, sem repetição, sem possibilidade de comparar versões alternativas. Não há laboratório em que possamos testar diferentes modelos de vida antes de escolher: com filhos, sem filhos; com esta pessoa, com outra; com este país, com aquele; com este eu, com um que nunca existirá. A pergunta regressa: como poderia existir preparação para algo que nunca poderá ser ensaiado?
Também a perda expõe o mesmo paradoxo. Fala-se muitas vezes em “preparação emocional” para a morte ou para o luto - seja literal ou não -, mas a experiência concreta resiste sempre a essa antecipação. O famoso “temos de estar preparados” quando alguém está num ponto sem retorno, ou “já com idade”, expressão que sempre me divertiu pela sua impotência, não prepara ninguém para nada. Nenhuma teoria diz o que acontece quando uma ausência se instala na estrutura íntima da vida quotidiana, quando já não há escova de dentes no copo, nem cadeirão ocupado ou a respiração do outro a corrigir o silêncio da casa.
Costumo dizer, meio a brincar, meio em confissão, que a minha religião é o epicurismo, e Epicuro tentou resolver esta maquinaria existencial com uma lógica cruel na sua clareza: a morte não nos diz respeito - enquanto existimos, ela não está presente; quando ela chega, já não estamos aqui. Filosoficamente impecável, existencialmente insuficiente. Porque o sofrimento nunca nasceu apenas da morte em si, mas da consciência antecipada da perda, dessa capacidade profundamente humana de sofrer pelo que ainda não aconteceu, ou pelo que já aconteceu e continua a acontecer, incessantemente, dentro da memória. Sofremos pelos outros antes da ausência, durante a ausência e depois dela, e por vezes sofremos até por nós próprios, assistindo ao lento desaparecimento daquilo que foi sendo ao longo do tempo. A morte pode não nos dizer respeito, mas a possibilidade da morte organiza silenciosamente uma parte significativa das nossas escolhas.
E a morte leva-me ao início e a outro extremo da experiência humana: o começo. Hannah Arendt propôs um conceito sobre natalidade que eu gosto particularmente e que ajuda a deslocar o olhar: cada nascimento representa a introdução de algo absolutamente novo no mundo. A história humana renova-se precisamente através dessa capacidade de iniciar o imprevisível. A maternidade, nesse sentido, não é apenas uma decisão privada: participa de uma estrutura mais profunda da condição humana, essa possibilidade de começar aquilo que nunca existiu antes. E nada, rigorosamente nada, pode preparar alguém para o que significa inaugurar uma existência que não é a sua, e ainda assim depende dela. Se levarmos Arendt a sério, percebemos que esta lógica não se aplica só a filhos. Toda a decisão fundamental é um acto de natalidade em pequena escala. Um compromisso com uma pessoa, mudar de profissão, recomeçar numa cidade/num país diferente, pôr fim a uma história que já não nos tolera - cada gesto destes abre um território desconhecido. Passamos uma parte significativa da vida a procurar garantias antes de avançar. Queremos saber se o amor resultará, se a mudança compensará, se a escolha será a correcta, se a criança será feliz, se a nova cidade nos acolherá, se não estaremos a cometer um erro irreparável. Mas a natalidade, na leitura de Arendt, é precisamente a recusa dessa garantia. O novo só é novo porque não pode ser previsto e há uma estranha violência nesta ideia. A vida exige constantemente que avancemos sem conhecimento suficiente, que façamos apostas com informação incompleta, que avancemos para compromissos cujas consequências não podemos calcular. E, ainda assim, é dessa fragilidade que nasce tudo o que vale a pena. Nenhum amor começou com provas definitivas. Nenhuma amizade profunda nasceu de uma certeza absoluta. Nenhuma obra foi criada depois de todas as dúvidas terem desaparecido. A maturidade não consiste em aprender a controlar o futuro, mas em desenvolver uma relação mais pacífica com a sua opacidade. Em compreender que viver não é eliminar a incerteza, mas atravessá-la.
O niilismo, outra “religião” que me assiste, não diz que nada importa; diz que nada importa por si mesmo. Se nada tem valor intrínseco, então o valor é aquilo que nós construímos, conscientemente, com o material imperfeito que somos. Isso não é desespero, é responsabilidade sem rede. Um filho escolhido a partir dessa lucidez é um filho escolhido sem ilusões de eternidade, sem a fantasia de um manual moral escondido algures no cosmos. É aceitar que não há promessa absoluta de protecção, felicidade ou permanência, apenas a tentativa profundamente humana de estar presente enquanto se consegue, de amar dentro dos limites do corpo, do tempo e da falha, com a honestidade brutal de reconhecer que até a presença tem prazo, e que parte do amor talvez seja precisamente essa consciência. Do mesmo modo, um compromisso amoroso que nasce não do medo de ficar só, mas da disponibilidade para partilhar um pedaço de caos com alguém, sabe que não existe cláusula de rescisão metafísica: há fim, há desgaste, há mudança, há versões nossas que deixam de caber na casa que construímos a dois. Um filho por pânico da solidão não é um acto de amor, é um acto de ansiedade com data de nascimento. Um compromisso por medo de perder não é lealdade, é possessividade com aliança.
O território onde tudo isto acontece é o confronto entre o desejo humano de ordem e a indiferença do mundo. A vida não oferece garantias suficientes para justificar as nossas decisões, e mesmo assim somos obrigados a decidir. Não há avaliação de risco que nos dispense do salto. E nesse sentido, talvez a pergunta correcta não seja quando estamos preparados. Outra pergunta começa a desenhar-se: será que viver exige preparação, ou apenas disponibilidade? Disponibilidade para ser transformado por aquilo que acontece, para aceitar que cada escolha fecha outras vidas possíveis, para atravessar acontecimentos que nunca poderão ser plenamente compreendidos antes de acontecerem. Uma espécie de prontidão sem manual, um estar aberto em vez de um estar preparado.
Talvez por isso a preparação nunca seja um estado, mas um verbo em gerúndio. Aprendemos a amar amando, aprendemos a perder perdendo, aprendemos a viver vivendo. Nenhuma pedagogia antecede completamente estes processos. Os filósofos iluminam fragmentos, os livros oferecem mapas provisórios, os amigos partilham pequenas sabedorias improvisadas à mesa de um jantar. Ainda assim, o momento decisivo continua a acontecer num território interior onde ninguém nos acompanha, uma divisão da casa onde só entra um de cada vez.
Estar preparado é, muitas vezes, uma ilusão que serve sobretudo os covardes e os burocratas da própria vida - a parte de nós que gostaria de assinar papéis, carimbar formulários, cumprir etapas e dizer: “agora sim, posso avançar, o dossier está completo.” Mas a vida não trabalha com dossiers. O que existe, de facto, não é estar preparado: é estar desperto. Desperto para o risco, para a irreversibilidade, para a beleza específica de escolher algo que não tem cancelamento possível. Não existe unsubscribe de um filho. Não existe atendimento ao cliente para um amor que se levou a sério.
A preparação nunca é um ponto de chegada nem um ponto de partida. É, na melhor das hipóteses, a capacidade de permanecer aberto ao desconhecido sem fugir logo que o chão começa a tremer. Uma espécie de arquitectura flexível da alma, que aceita que algumas paredes vão rachar, outras terão de ser derrubadas, que algumas casas de vida, que mais parecem anexos, terão de ser abandonadas para que outras possam ser construídas.
Arriscando uma definição provisória da condição humana, talvez seja isto: uma improvisação permanente diante de um mundo que não nos fornece instruções suficientes. A vida acontece antes de estarmos preparados, continua depois de pensarmos que sabemos, e termina quando ainda temos perguntas. A única honestidade possível é reconhecer que vivemos sempre um pouco em obras, com andaimes no pensamento, ferramentas espalhadas pelo chão da consciência, paredes por pintar, divisões por inventar - e ainda assim, mesmo no meio do pó, há gestos de cuidado, há que limpar o pó, há móveis que escolhemos manter, outros recuperar e há janelas que abrimos de propósito para deixar entrar o ar frio do que não controlamos.
D.
Outras notas para quem chegou aqui:
Este texto viveu nos drafts durante quase dois meses. Não por falta de tempo, nem por falta de ideias. Recusava-se a acabar. Voltava a ele de tempos a tempos. Mudava uma frase de sítio, derrubava uma parede, abria uma janela onde antes existia um corredor, mas havia sempre qualquer coisa que permanecia por resolver. Uma divisão escura onde o texto ainda não queria viver.
Hoje de madrugada, já a adormecer - uma pequena epifania. Nada de particularmente dramático, apenas a sensação súbita de que a peça em falta tinha estado sempre ali. É difícil ignorar a ironia no facto de um texto chamado “Estamos Preparados?” ter passado tantas semanas à espera de ser terminado.
A verdade é que esta deve ser uma das poucas coisas na vida que gosto de deixar no limbo. Tenho pouca tolerância para a indecisão. Há uma certa urgência de viver em mim, uma inquietação permanente que raramente tolera salas de espera existenciais. Prefiro quase sempre o movimento ao impasse, mesmo quando isso significa avançar sem garantias, escolher sem certezas, saltar antes de saber exactamente onde vou aterrar. Não por coragem, necessariamente, mas por uma incapacidade quase patológica de permanecer demasiado tempo à porta das coisas. Não fosse eu a criatura que, na primeira vez que pôs uns skis nos pés, decidiu subir de teleférico até aos 2500 metros de altitude sem nunca ter aprendido antes a descer. A história apesar de icónica, terminou sem a glória prevista, mas confirmou uma suspeita antiga: tenho uma tendência recorrente para confiar no caminho antes de saber percorrê-lo.
No entanto, com a escrita acontece o contrário. Nunca consigo terminar um texto apenas porque o raciocínio chegou ao fim. Preciso de sentir que fui atravessada por ele. Que a pergunta me habitou durante tempo suficiente. Que me deslocou ligeiramente do lugar onde estava quando escrevi a primeira frase. E, enquanto escrevo isto, percebo que não é apenas sobre escrita. É também sobre as coisas importantes da vida. As relações. As revelações. As despedidas. As decisões que alteram a geografia íntima de quem somos. As coisas verdadeiramente importantes parecem recusar-se a obedecer aos prazos da eficiência. Permanecem durante meses, por vezes anos, nesse território ambíguo entre o ainda não e o já quase. Como se precisassem de amadurecer nas zonas mais profundas da consciência antes de poderem assumir uma forma definitiva. Como se exigissem não apenas ser pensadas, mas vividas.
Talvez os limbos não sejam apenas lugares de indecisão. Talvez sejam também lugares de transformação. Alguns textos escrevem-se. Outros acontecem-nos. Este pertence à segunda categoria.
Durante dois meses achei que estava à espera de o terminar. Agora suspeito que estava à espera de me encontrar na pessoa que o podia escrever. Há perguntas que não procuram respostas, procuram tempo. E há textos que não acabam quando encontramos a última frase. Acabam quando já não somos exactamente os mesmos que escreveram a primeira.




De facto, somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livres: estamos condenados à liberdade.
Belíssimo texto. Também eu sempre me senti impreparado para ter filhos, ou para tomar outras grandes decisões. Na realidade, sempre detestei a escola e a cultura ocidental que os mass media nos impingem. Sempre senti que trazer um filho ao mundo era traumatizá-lo e cometer um ato errado.
Agora, tudo é diferente. Sinto que me descobri e que já conseguiria trazer um filho ao mundo sem o traumatizar. Para esta mudança, foi determinante ter descoberto o budismo há 15 anos. O budismo é uma filosofia da mudança, da dificuldade, e dos vieses do eu. Há erros epistemológicos básicos na cultura ocidental que o budismo corrige. O budismo é eminentemente existencial, pois diz-nos: "Não há nada a que te possas agarrar. Nenhum deus ou ideia te vai salvar. Só te pode salvar a forma como lidas com esta situação".
Ao mesmo tempo que descarta todas as falsas soluções, o budismo oferece uma panóplia de boas soluções: como analisar sensações, ideias, estados mentais, até analisar se vamos ou não fazendo um caminho de aproximação à verdade. Uma pessoa que tenha recebido os principais ensinamentos budistas é uma pessoa que consegue lidar facilmente com a vida.