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Tiago Monteiro's avatar

De facto, somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livres: estamos condenados à liberdade.

João Madureira - Nutricionista's avatar

Belíssimo texto. Também eu sempre me senti impreparado para ter filhos, ou para tomar outras grandes decisões. Na realidade, sempre detestei a escola e a cultura ocidental que os mass media nos impingem. Sempre senti que trazer um filho ao mundo era traumatizá-lo e cometer um ato errado.

Agora, tudo é diferente. Sinto que me descobri e que já conseguiria trazer um filho ao mundo sem o traumatizar. Para esta mudança, foi determinante ter descoberto o budismo há 15 anos. O budismo é uma filosofia da mudança, da dificuldade, e dos vieses do eu. Há erros epistemológicos básicos na cultura ocidental que o budismo corrige. O budismo é eminentemente existencial, pois diz-nos: "Não há nada a que te possas agarrar. Nenhum deus ou ideia te vai salvar. Só te pode salvar a forma como lidas com esta situação".

Ao mesmo tempo que descarta todas as falsas soluções, o budismo oferece uma panóplia de boas soluções: como analisar sensações, ideias, estados mentais, até analisar se vamos ou não fazendo um caminho de aproximação à verdade. Uma pessoa que tenha recebido os principais ensinamentos budistas é uma pessoa que consegue lidar facilmente com a vida.

Diana V. Carriço's avatar

Obrigado pela partilha tão pessoal, João. Embora eu não seja budista nem religiosa (apesar de contribuir para as estatísticas da religião católica), identifico-me muito com a ideia de que existe uma dimensão espiritual da vida que a nossa cultura tende a negligenciar. Não necessariamente espiritualidade no sentido religioso, mas no sentido de uma prática de autoconhecimento, de humildade perante a complexidade da existência e de capacidade para conviver com a incerteza.

Acho que muitas das angústias contemporâneas nascem precisamente da ilusão de que podemos controlar tudo, prever tudo e resolver tudo através da razão. E, no entanto, algumas das perguntas mais importantes da vida como o amor, a morte, a parentalidade, o sofrimento, resistem obstinadamente a soluções puramente racionais.

Gosto particularmente dessa ideia que referes: não há nada a que nos possamos agarrar definitivamente. Talvez a maturidade consista menos em encontrar certezas e mais em desenvolver a capacidade de navegar a incerteza sem ser destruído por ela.

Seja através do budismo, da filosofia, da arte ou de outras formas de contemplação, parece-me que a espiritualidade tem esse papel fundamental: não eliminar a dificuldade da vida, mas ajudar-nos a habitá-la melhor.